sexta-feira, 21 de março de 2014

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA CONFRARIA DO ESCRITOR DO JORNAL NOTÍCIAS DO DIA EM 15 E 16 DE MARÇO DE 2014




AO CAMINHONEIRO COM CARINHO

 Eliana Aparecida de Quadra Corrêa

O som do caminhão. Sonho de menino. Sem nunca ter visto tal veículo, era embalado pelo som do ronco forte do caminhão que acelerava além das serras da redondeza. Em sua imaginação de menino: ser grande, ter uma linda mulher e se aventurar pelo mundo era uma grande felicidade. Desde pequeno também queria ter uma família. Quem sabe passar o seu ofício também para os herdeiros. E o auge ter até uma filha boa de boleia.
Entre porcos, galinhas e enxada, o pequeno cresceu. A escola era para ele um trampolim para a estrada. Principalmente a matéria de geografia que lhe ensinava os nomes dos lugares, suas localidades e distâncias e a Ciências, os mistérios do ciclo da vida. A mãe até queria que ele seguisse a carreira na escola, mas a sina de caminhoneiro já estava cravada em seu peito.
Além do espírito aventureiro, a curiosidade também foi ingrediente para a formação do carreteiro, pois aprender de tudo um pouco auxiliaria para desenvolver bem o ofício escolhido.
O início da profissão não foi fácil. Entre serras perigosas, estradas de chão e cargas a lenhas e toras aprendeu as primeiras manobras com um Chevrolet Brasil 1961, quatro marcha, sincronizado chamado carinhosamente entre os caminhoneiros de Queixo Duro por ter direção mecânica.
O caminhão Ford 1964 foi o seu segundo companheiro de estrada. E com orgulho comenta: - O primeiro motor a diesel fabricado no Brasil, o motor Perkeins de cinco marchas, apelidado pelos apaixonados por viagens de Caixa Seca por não ser automatizado.
Por outras aventuras foi o nobre caminhoneiro conquistar e seu pai deixou na roça a chorar. Mas desejava desbravar o mundo e ali não era o seu lugar. E de Mercedes 11 13 e depois de 20 13 de boiadeiro foi trabalhar, carregar boi do Mato Grosso e muitas fazendas frenquentou. Há Maçarico Queixo duro, motor aspirado não era turbinado mas era coisa nova no tempo que foi fabricado.
Depois veio o Scania 101 e também o 19 24 e o Volvo N10 20 e XH e com eles muitos lugares deste Brasil ele foi conhecer, do Sul ao Norte, do Nordeste ao Sudeste e até Centro-oeste o bravo carreteiro rodou estrada a fora ao som de moda sertaneja daquelas que contam histórias tão poéticas que só no tempo da viola se compunha tal melodia. Pois a saudade era tanta, em busca do sustento que muitas vezes, meses ficava longe da família.
É assim que muitos caminhoneiros do mundo de Deus começaram seu fazer em busca de abastecer a mesa alheia. Deixando a sua família na saudade e na esperança da volta, para cumprir o seu destino com hora marcada de entrega. Quantas noites sem dormir, quantos aniversários, nascimentos, enfermidades, tristezas, alegrias dos filhos sem presenciar, quanta tristeza no olhar por estar tão longe.
Mas sabe que a recompensa lhe espera além de levar o pão de cada dia às mesas de tantas pessoas e confortos para seus lares. O maior é quando chega em casa. Vê a sua família à espera para compartilhar suas aventuras. Em torno da mesa entre causos fantásticos degusta um petisco servido pela mulher amada. E vislumbra os olhares de curiosidades dos filhos gerados e educados entre uma viagem e outra trazendo a sabedoria colhida de cada lugar por onde o caminhoneiro passou.



Eliana Aparecida de Quadra Corrêa

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL NOTÍCIAS DO DIA DE ELIANA APARECIDA DE QUADRA CORRÊA EM 14 DE FEVEREIRO DE 2014




SATISFAÇÃO EM ESTAR INSATISFEITO


Parece até engraçado, como há pessoas que gostam de reclamar. Uma satisfação estar insatisfeito com tudo. Será o mal da contemporaneidade? Ter em excesso e se sentir que nunca está bom o bastante? Pego-me observando as pessoas no dia a dia em seus atos e comentários. E isso ocorre com tudo, desde artigos mais fúteis aos mais necessários para a sobrevivência humana. Parece que quanto mais se tem, pior é.
Vejo crianças, que ainda poderiam estar aproveitando o mundo de faz de conta e brincando com o imaginário, ficar horas em frente da televisão, computador, tablet (não que eu seja contra a evolução tecnológica, mas sim, ao uso obsessivo) sentindo-se insatisfeitos por não terem “ainda” o brinquedo da última geração, já que o brinquedo adquirido na semana passada está ultrapassado. Estes por sua vez tornando-se jovens que não vestem uma roupa se não forem da marca do momento. E adultos que gastam mais que ganham e assim em efeito cascata, o mundo caminha para um futuro incerto e aterrorizante. Onde vamos parar com a insatisfação?
Mas tudo isso relatado foi por causa de um fato recorrente neste verão a muito não visto nestes últimos anos. Dias consecutivos de um verão de céu azul belíssimo sem nuvens e de um calor praiano e convidativo para a curtição em família, com amigos ou com a pessoa amada.
Lendo o jornal, meus olhos deslizam em palavras: massa de ar quente e seco, que se instalou em Santa Catarina na última semana de janeiro até meados de fevereiro com temperaturas de 30ºC no final da manhã e 40ºC à tarde com sensação térmica de até 50ºC com índices ultravioletas em extremos. Em outra reportagem: Joinville foi líder do ranking mundial com a sensação térmica de 52 graus no dia 31 de janeiro de 2014 sendo a maior marca registrada nos últimos 103 anos.
Vem a constatação, mês de janeiro e fevereiro com poucas chuvas principalmente em Joinville, conhecida como a cidade da chuva. Quantos verões anteriores que tivemos até enchentes por causa da grande quantidade de água mandada pelas nuvens escuras e densas, os temporais que destruíram casas e famílias inteiras. Não que estou reclamando da abençoada chuva que vem do mansinho trazendo o frescor em nossos dias.
O que eu quero aqui é apontar para insatisfação humana. Faça sol ou faça chuva, nunca está bom o suficiente para agradar ao “refinado” gosto contemporâneo.
Temos a oportunidade do uso da tecnologiapara amenizar o calor excessivo nos confortando com o frescor do ar-condicionado, piscinas de todos os tamanhos, a beleza da natureza com banhos em rios, cachoeiras e mares, a brisa do final da tarde. Já houve tempos que não havia nem ventiladores e as pessoas se refrescavam com os charmosos leques, andavam com sombrinhas e chapéus para se protegerem do sol e assim por diante.
Sei que os pessimistas podem pensar que isto é um cúmulo. Mas pense: Se estamos passando por este calor escaldante, não é também fruto da nossa insatisfação gerada pelo consumismo?


Eliana Aparecida de Quadra Corrêa

domingo, 26 de janeiro de 2014

POEMAS PUBLICADOS NO JORNAL NOTÍCIAS DO DIA

Poemas publicados na página da Confraria no jornal Notícia do dia nos dias 25 e 26 de janeiro de 2014 de autoria de Eliana Aparecida de Quadra Corrêa.




Ilustração de Elisa Rosa de Matos


MEMÓRIAS TRUNCADAS DE TRISTEZAS

A s quedas
Como é difícil não levantar sozinha.
Entre tristezas e alegrias segue a vida.
A depressão persegue
A sensação de solidão
Envolve o coração
Na ânsia incalculável
De viver e renovar os músculos
Voltar a andar como antes.
A velhice chegou.
O que esperar
Quando o corpo não responde
 mais aos estímulos do cérebro?
Angústia, medo, tristeza.
Em meio ao devaneio
Um vulto e uma fumaça clara
O encontro e desencontro.
Parece gente que ronda o espaço
Procuras incansáveis pelo quarto em vão
A cama quente como se alguém
estivesse ali a poucos momentos.
Mas nada se encontra.
E pior, ninguém acredita.
Então indagações a Deus são feitas
Para saber o que aconteceu:
Quem estava no quarto?
O que está acontecendo?
Nem médicos,
Nem hospital
Conseguem explicar.
Apenas esboçam sorrisos
Para amenizar o que não tem solução.
A velhice chegou.
Não tem o que fazer.
A descoberta de um ataque do coração
Uma voz sussurra:
- Tome cuidado!
Na velhice,
Costumes vão aparecendo, tecendo
Os dias intermináveis
Entre os chuvosos e ensolarados
Entre sonos, sonhos e devaneios.
Queimores nas pernas que teimam
A não obedecer os comandos vitais.
Levantar-se, que outrora
Fora um comando simples
Agora se torna um movimento
De paciência e força interior para conseguir.

A velhice chegou.
E coisas simples do cotidiano
Feitos com tanta destreza na mocidade
Com tanto carinho,
Como o zelo do lar,
Passa a ser funções cada vez mais impossíveis.
Mas a vontade de fazê-las
E não conseguir é o pior,
Que envolve o ser em tristezas.
Quantos sonhos realizados
E quantos desejos ainda anseiam por realizar.
A velhice chegou.
E no período de devaneio e tristeza
Pergunta-se:
- O que resta é sofrer?
- Este é o fim?

Indagações de uma pessoa com mal de alzheimer.



Escritora: Eliana Aparecida de Quadra Corrêa


Tempo através dos tempos

Tempo bem, bem, passados

Cooooricooó.


Tempos bem passados

Tic, tac,
Tic, tac,
Tic, tac,
Tic, tac.

Trim, trim, trim, trim.

Tempos passados.

6:00
6:00
6:00
6:00
Pim, pim, pim, pim.

Tempos atuais

Always here.

Autora: Eliana Aparecida de Quadra Corrêa